Havia
algo que eu temia mais que qualquer outra coisa quando estava servindo ao exército: a
famigerada pista de reação. Para quem não sabe a pista de reação é uma sequência
de obstáculos pelos quais todos os recrutas devem passar. Trata-se de uma
simulação de combate. Lembro-me como todos estavam tensos. Eu já tinha uma vaga
ideia do que nos esperava, pois, meu irmão passou por maus bocados cinco anos
atrás e havia me relatado alguns momentos. O oficial que estava à frente quando
iniciei a minha trajetória era um dos mais temidos, pelo menos por mim.
Tratava-se do Tenente Moura, cara cheio de marra, rigoroso e exigente. Havia um
clima de guerra no ar. Nada mais natural, afinal a ideia era essa. Fui logo
demonstrando muita garra ao responder, com gritos até, ao que me era
perguntado. Notei que o tenente se impressionou com minha atitude até eu
cometer meu primeiro ato impensado. A todos seria confidenciada a senha para
que a apresentássemos quando necessário e, ao perceber que o tenente mandara um
soldado começar sua corrida sem que a senha lhe fosse dada, interpelei-o com
uma observação:
-Tenente,
o senhor não lhe deu a senha.
Como
resultado disso paguei dez cangurus, dez flexões e recebi uma bronca com
xingamentos impublicáveis. Após o meu castigo comecei a correr que nem um
desesperado. Eram tiros, bombas, gritaria, um inferno. Mas tudo ia bem. Passei
pelo charco com certa facilidade, apesar da necessidade de ter que levantar o
fuzil acima da cabeça para que o mesmo não molhasse. Entretanto, o segundo ato
falho não demorou a acontecer. Não lembro a sequência com exatidão, mas chegara
a hora de passar pelo túnel de gás lacrimogênio. Tratava-se de uma vala com
cobertura de lona. Dentro havia muita lama e ao redor, soldados antigos, cabos
e sargentos gritavam o tempo inteiro e jogavam bombas de efeito moral e de gás
lacrimogênio. Tive muita dificuldade devido à quantidade de lama e o cheiro de
gás era horrível. Os olhos ardiam, a boca seca, muita sede. Praticamente não
saia do lugar, estava muito cansado. Mesmo com tanto perrengue pensei em pegar
um dos muitos gorros perdidos por outros guerreiros. O meu, havia perdido um
pouco antes. Mas não consegui. Com a demora, mais gás foi jogado. Foi aí que vi
uma fresta de luz à minha frente. Pensei: Meu Deus, terminou, chegou ao final
desse túnel desgraçado. Sem pestanejar enfiei minha cabeça pela pequena fenda.
Não era o fim do túnel.
-“Seu
miserável, ‘caga pau’, infeliz você rasgou o meu túnel, recruta desgraçado? -
Esbravejou alguém.
Eu
simplesmente destruí o túnel. Paguei mais uma “porrada” de cangurus e flexões,
além de ouvir outros tantos xingamentos. Estava exausto. Quando chegava perto
do final, se me lembro bem, alguém me disse que o sargento Azevedo era quem
esperava pela senha e sem a mesma o castigo seria doloroso, por assim dizer.
Foi aí que eu me dei conta não me recordar da bendita senha. Quando estava
próximo ao fim da pista comecei a sentir câimbras e fiquei deitado no chão, me
contorcendo. Antes de ser socorrido ouvi mais xingamentos e ofensas:
- “Levanta
recruta caga pau! Se não levantar voltará a refazer a pista do começo”. -
Gritavam alguns.
- “Me
lasquei”! - Eu pensei.
Já
que eu não dava sinais de recuperação, e confesso, fiz parecer ser mais grave
do que realmente era, os sargentos resolveram fazer uma maca e convocar alguns
dos meus colegas para que me carregassem até a base do acampamento. Chegando
lá, mandaram-me tirar a roupa molhada e fui examinado e medicado. Chegaram a
cogitar a possibilidade de um resgate por helicóptero, mas não houve a
necessidade. Recebi uma injeção que de tão dolorosa talvez fosse melhor
enfrentar o Sargento Azevedo e aguentar as consequências por não me lembrar da
senha.
Desse
fato não me saem da cabeça três situações. Lembro como se fosse hoje: a
primeira é como um sargento que eu não conhecia, a me ver só de cueca (por ter
tirado a farda que estava toda ensopada) e por minha magreza muito peculiar,
disse:
-
“Que porra é essa?”.
Realmente,
eu não estava muito gatinho.
A
segunda foi quando eu ainda estava deitado e meio sonolento por conta da
injeção que haviam aplicado em mim e o Capitão Gilson, Comandante da Segunda
Companhia chegou para me ver.
-
Capitão, eu queria terminar a pista, mas não consegui. - Antecipei-me.
Em
resposta, ele me disse:
- Não
tem nada não, guerreiro, você é cabra macho da Segunda!
Eu já
o admirava pela sua postura e seu senso de justiça, mas depois desse dia fiquei
ainda mais orgulhoso por ser um dos seus comandados.
E a
terceira foi o companheirismo da turma que me carregou na maca. Enquanto eles
me carregavam, para a surpresa de todos do grupo, o recruta Romão (amigo meu de
longa data, pois tínhamos cursado todo o ensino médio, juntos) também era
socorrido e carregado em outra maca improvisada com varas de madeira
encontradas no mato e gandolas (uma espécie de jaqueta que faz parte do
uniforme). Além de demonstrar a união do pelotão, apesar de terem recebido
ordens para assim fazê-lo, o socorro que nos foi prestado serviu de experiência
do que poderia acontecer num combate verdadeiro. Ao longo do trajeto chegaram
ao ponto de compor uma modinha para ilustrar o ocorrido:
Soldado "morreu" na pista de reação
O
primeiro foi Torquato
O
segundo foi Romão.
Até
hoje não sei quem foi o gaiato compositor.
A
situação tornou-se um dos fatos mais marcantes de nossa passagem pelo 35º Batalhão de Infantaria.
2 comentários:
Belo relato, o final então, muito engraçado!
Viajei no tempo e me vi na pista de reação, ainda mais quando me lembro da sandália de um guerreiro que havia sido deixada e eu a resgata-la no momento em que lançaram mais gás lacrimogêneo, o desespero ia tomando conta de mim, mas pro meu alívio cheguei ao final.
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