Acordei hoje com lembranças de quando
eu era “moleque” e frequentava a casa da minha avó no município de Santa
Bárbara, na parte alta de um povoado ao qual nos acostumamos a chamar de
Candeal Pequeno, nome dado a uma fazenda da região. Era uma casa grande, mas
encantadoramente simples. Tinha paredes brancas, portas e janelas de madeira
pintadas de azul. Eram três quartos, cozinha, sala e varanda. Até então não era
provida de banheiro, não sei se pela falta de recursos e/ou pela falta de água
encanada. Havia uma árvore esplendorosa um pouco à frente da casa, do lado
esquerdo, onde os animais se escondiam do sol. O vento batia em suas flores
vermelhas, derrubando-as ao chão, formando um grande tapete. Na parte de trás
da residência existia um tanque com água em abundância proveniente das chuvas
que ocorreram com gosto àquela época.
O amanhecer na casa da minha avó era
divino. Recordo-me de dormir à noite, depois de longas e interessantes
histórias, à luz de candeeiros, contadas por minha avó e meu pai, imaginando o
dia seguinte. Como havia dito antes a casa ficava na parte mais alta do povoado,
isolada. Logo muito cedo, ao despertar, eu e meus irmãos corríamos para a
varanda, sentávamos num banco grande de madeira e, encantados, ouvíamos o
cantar dos pássaros. Ficávamos em silêncio, admirando o som da natureza. Nas
primeiras horas da manhã uma neblina sempre cobria toda a extensão da
propriedade e não dava para enxergar nada a mais de dez metros de distância.
Antes que percebêssemos a chegada de algum visitante os cachorros começavam a
latir. Só mais tarde conseguíamos ouvir as passadas de cavalos. Geralmente era
um de meus tios trazendo o leite. Em meio à neblina ouvia-se o ranger da
porteira (lá, chamavam-na de cansela) ao se abrir.
Logo, a refeição matinal estava
pronta. Ainda sinto o cheiro do café que minha avó preparava num forno a lenha.
Uma delícia! Café, leite (tirado da vaca, logo cedo), batata, pão, inhame,
bolos. Tudo muito natural e delicioso. Todo esse banquete era servido numa mesa
de madeira, muito grande. Os bancos eram iguais ao da varanda, cabiam de quatro
a cinco pessoas em cada um deles, assim como algumas galinhas que,
teimosamente, insistiam em querer compartilhar da nossa comida. Vivia-se de uma
forma modesta, mas havia sentimento, acolhimento. Muitas saudades daqueles
tempos!
Um comentário:
Viajei pra Baixa Grande, mais precisamente, Fazendas Mandacaru e São José, casas dos meus avós! Parabéns pelo belo texto!
Postar um comentário