Acordei hoje com lembranças de quando frequentava a casa da
minha avó no município de Santa Barbara, na parte alta de um povoado ao
qual nos acostumamos a chamar de Candeal Pequeno, mas que, na verdade, o seu
nome original é Barrocão. Era uma casa grande,
mas muito simples com paredes brancas, portas e janelas de madeira pintadas de
azul. Tinha uns três quartos, cozinha, sala e varanda. Ainda não havia
banheiro, por isso todas as nossas necessidades fisiológicas eram feitas num “pinico”
ou no mato mesmo. Lembro-me de uma vez em que fui com dois primos fazer o chamado
número dois, no mato. Eu ainda resisti ao inevitável constrangimento, mas a necessidade falava mais alto. O
problema é que, todos por lá já que eram acostumados a essa situação, menos eu,
obviamente. Meus primos pouco se importavam se seríamos vistos ou não e, para
piorar, a roça não era nenhuma floresta e a mata era rasteira, portando não
havia muitos lugares para se esconder. A circulação de pessoas próximas era
pequena, mas de vez em quando alguém caminhava por entre as trilhas. Como ali
todos se conheciam, os meus primos, para o meu desalento, cumprimentavam os transeuntes
com a maior naturalidade do mundo, antes mesmos de sermos vistos. Pensem numa
vergonha!
Mas a roça não era só perrengue tinha seus encantos e não eram poucos. O amanhecer
na casa da minha avó era divino. Recordo-me de dormir à noite, depois de longas
e interessantes histórias, à luz de candeeiros, contadas por minha avó e meu pai,
imaginando o dia seguinte. Como havia dito antes a casa ficava na parte alta do
povoado, isolada. Logo muito cedo, ao despertar, eu e meus irmãos corríamos para frente da casa.
Sentávamos num banco grande de madeira e, encantados, ouvíamos o cantar dos pássaros. Uma
neblina sempre cobria toda a extensão da propriedade e não dava para enxergar
nada a mais de dez metros de distância. Ainda sinto o cheiro do café que minha
avó preparava num forno à lenha. Uma delícia! Eu ficava em silencio, admirando
o som da natureza. Havia uma árvore esplendorosa um pouco à frente da casa, do
lado esquerdo. O vento batia em suas flores vermelhas, derrubando-as ao chão.
Antes que percebêssemos a chegada de algum visitante os cachorros começavam a
latir. Só mais tarde conseguíamos ouvir as passadas de cavalos. Geralmente era
um de meus tios trazendo o leite. Ao chegar ouvia-se o ranger da porteira (lá,
chamavam de cancela) ao se abrir.
Adorava o café da manhã! Café, leite (tirado da vaca, logo
cedo), batata, pão, inhame, bolos. Tudo muito natural e delicioso. Vivia-se de
uma forma modesta, mas havia sentimento, havia acolhimento. Muitas saudades
desses tempos!